Lei da influência pessoal

Para abordar a lei da influência pessoal torna-se necessário, e útil, definir os conceitos de influência e pessoa. O conceito de influência deriva da ideia de fluido como entidade física, ou estado da matéria, cuja forma se pode alterar pela acção das forças e contingências ambientais; o conceito de pessoa resulta da ideia de uma consciência que assume uma identidade própria e se defende de todos os factores, ou forças, que possam alterar essa identidade. A consciência funciona como um processador de estímulos, ou informação, provenientes do meio interno ou externo e torna-se pessoa no momento em que assume uma identidade volitiva. A vontade é o culminar máximo de todas as forças, defensivas ou ofensivas, mentais. Considerando que, pela sua natureza, a influência é amorfa, então a influência pessoal compreende todos os modos capazes de alterar a vontade identitária de uma consciência.
Na prática pode-se sempre afirmar que se duas pessoas interagem e uma consegue alterar a vontade da outra, essa alteração derivou do exercício de influência pessoal. Estudar, e compreender, o princípio geral que governa os modos, e as forças, que permitem a uma vontade alterar outras é compreender a lei da influência pessoal.
É mais fácil influenciar outras pessoas do que resistir à influência alheia mas também é certo que, de um modo geral, todas as pessoas influentes gozam de grande prestigio pessoal e social; por outro lado, o exercício da influência é também fonte de prestígio e sucesso.
O treino em indução do transe hipnótico constitui o elemento básico de aquisição das capacidades em influência pessoal. Primeiro inicia-se com uma preparação mental que consiste em conduzir o objecto da influência a aceitar as sugestões que lhe serão dirigidas; propõe-se um estado de relaxamento corporal e mental, livre de ansiedade e de medo que proporciona aceitação incondicional. As melhores sugestões hipnóticas são emitidas com uma voz gutural profunda, lenta, monótona e imperativa; o olhar deve ser fixo com os olhos apontando para a raiz do nariz; os gestos de influência serão lentos e corridos ao longo do corpo de cima para baixo e para levantar a influência fazem-se em sentido inverso; os toques corporais serão brandos, suaves e localizados em zonas sensíveis e previamente seleccionadas. Os órgãos e sentidos que permitem a entrada das sugestões são, por ordem de importância; visão, audição, tacto, olfacto e gosto ou paladar; são pois estes que, em cada objecto de influência, devem ser estudados e trabalhados a fim de melhor concretizar o comando e controlo da mente alheia. As sugestões, além de lentas monótonas e imperativas, devem também ser repetidas; a repetição exprime melhor a crença e convicção do influenciador e quando efectuada ao longo do tempo, permite encontrar momentos de fraqueza e aceitação por parte do objecto de influência e assim entrar na sua mente.
Toda a mudança mental que um ser humano pode induzir noutro, com excepção dos métodos químicos, físicos e biológicos, é efectuada e age dentro dos limites próprios da lei da influência pessoal no entanto, ao longo da história da humanidade, foram sendo desenvolvidas técnicas e modos inovadoras de aplicação desta lei. São muitos e variados os modos como se cativa e mantém a atenção concentrada das pessoas; são também muitos os modos de conduzir as pessoas a um estado de credibilidade e aceitação do que lhes é sugerido com a respectiva mudança nas atitudes, crenças, sentimentos, comportamentos e modos de pensar mas a sugestão directa continua a ser um dos melhores instrumentos da influência pessoal. A sugestão indirecta, assim como a sugestão mediada por instrumentos, ganharam uma força extraordinária com o desenvolvimento dos meios de comunicação de massas; os programas radiofónicos gravados, assim como os audiovisuais, tornaram-se num poderoso meio de manipulação humana pela manutenção da atenção e confiança em sugestões repetitivas que conduzem e mantêm a sociedade num transe hipnótico colectivo. A sociedade actual vive completamente adormecida, todas as pessoas, e cada uma, sente e pensa sempre que é única, que tem pensamentos próprios e distintos, que tem toda a força do seu egoísmo para se defender mas, na realidade, esse pensamento e sentimento é colectivo, atravessa diametralmente todos os elementos da sociedade; o transe colectivo consiste num conjunto de ideias, sentimentos e comportamentos pré formatados, pré estabelecidos pelos donos do mundo, mas impostos a cada um como sejam propriamente seus, como sendo um produto único, uma propriedade única e individual de cada um, como se esta pessoa seja um ser humano único e individual; é o transe de fazer as pessoas acreditarem que são únicas, é o transe do actual hipnotismo de massas, é o transe do actual hipnotismo colectivo.
Doutor Patrício Leite, 9 de Dezembro de 2017

RELAÇÃO

A sobrevivência do ser humano, desde muito cedo, na evolução filogenética, tem ocorrido associada a um instinto gregário que o condiciona a viver em grupo. As relações humanas são imprescindíveis para a sobrevivência da pessoa e da espécie. Relação é o estabelecimento de, pelo menos, um laço ou ligação dinâmica entre duas, ou mais, pessoas.
São muitas as classificações das relações entre seres vivos. Em ecologia classificam-se relações de competição, parasitismo, simbiose, mutualismo, cooperação, comensalismo, predação, canibalismo, etc. estas relações podem ser adaptadas e transpostas, por analogia, para o ser humano na sua convivência intra específica.
Numa comunidade politicamente organizada pensa-se em relações de poder, estabilizadas pela ordem jurídica e presentes nas várias interacções sociais, desde as relações laborais até aos aspectos comerciais e familiares. As relações dizem-se de poder quando pelo menos um dos seus elementos sofre uma subordinação ou subordina alguém. As relações de poder são, na sua essência, relações de subordinação. Quando os políticos pedem votos, estão a propor às pessoas que se lhes subordinem; que aceitem obedecer-lhes numa ordem jurídica estabelecida e assente na subordinação das pessoas votantes aos políticos dirigentes.
A comunicação entre seres humanos permite tornar comuns aspectos da vida individual. Dos elementos da comunicação, aceita-se que a linguagem verbal é importante para a transmissão de conhecimentos, ideias, conceitos e pensamentos entre o emissor e o receptor; por outro lado a linguagem não verbal, ou corporal, é usada como método de centralização na relação entre o emissor e o receptor. Assim, a linguagem verbal centraliza-se na mensagem e a linguagem não verbal focaliza-se na relação. Na abordagem da relação, através da linguagem não verbal, o método analógico assume importância primordial. A analogia resulta de uma comparação simbólica impregnada de emoções que se associam aos objectos do comportamento; há pois, como resultado, uma continuidade da vida mental. Na realidade o ser humano, a pessoa consciente, assume a permanência da sua identidade pessoal. Durante o sono a consciência é interrompida mas, imediatamente após acordar, a pessoa retoma a sua identidade pessoal, assume a sua unidade, a unidade do sujeito. O elemento fundamental das relações intrapsíquicas que permite a unidade do sujeito, a constância da identidade unitária pessoal, é a emoção.
Sabe-se que as emoções estão bem presentes quando a pessoa está a dormir, durante o sonho; mas também as imagens e ideias simbólicas fundamentadas numa analogia de estímulos e respostas independentes da consciência, que decorrem durante o sonho, se associam com emoções constituídas em afectos que permitem a manutenção da constância mental, a manutenção da identidade pessoal, a manutenção da unidade do sujeito. Não se sabe bem como as emoções funcionam para o organismo nos períodos de sono com ausência de sonho mas acredita-se que a emoção não é interrompida pelo sono, a emoção permanece fundamentalmente numa constância que mantém a unidade do sujeito; uma constância que permite manter a unidade identitária da pessoa imediatamente após acordar, imediatamente após recuperar a consciência.
Categorizar as relações em termos de interacção com o exterior, ou com o interior, é muito importante mas a análise da relação com base na sua focalização temporal, na sua localização num determinado tempo de vida do sujeito dessa relação, também é fundamental.
As relações podem ser abordadas pela sua focalização no passado, presente ou futuro da pessoa.
Qualquer relação, entre pessoas, que aborde o passado é uma relação que convida à transferência, é uma relação que facilita a revivescência de situações de vida passada, que não ficaram bem resolvidas e por isso geram tensões e conflitos intrapsíquicos sempre prontos a tentar a sua resolução na relação presencial do presente. As relações centralizadas no passado relacionam-se com o superego, relacionam-se com a aprendizagem e internalização de normas de conduta de pendor moral; o passado de uma pessoa representa o seu superego e a presentificação desse passado é a revivescência simbólica dos conflitos ocorridos com as figuras que frustraram os seus instintos, frequentemente de carácter sexual ou libidinoso, que obrigaram os instintos a conter a sua necessidade de satisfação.
As relações pessoais centralizadas no presente são entendidas como decorrentes de uma fase exploratória, uma fase de conhecimento actual desenvolvido a partir de uma mente racional, uma mente calculista capaz de processar dados e gerar informação com um mínimo, ou nenhumas, emoções e afectos. O presente de uma pessoa representa o seu ego, representa a sua racionalidade e intelectualidade; uma relação centralizada no presente é uma relação actual de um ego que usa mecanismos defensivos, predominantemente cognitivos, para atingir objectivos previamente calculados de modo racional.
Relações pessoais centralizadas no futuro representam o id, representam a força sexual inata de uma libido capaz de gerar comportamentos tendentes à reprodução, tendentes à manutenção da espécie. As relações focalizadas no futuro são relações de acasalamento e, quando frustradas, resultam defesas do ego que se associam com mecanismos de interiorização como a identificação ou introjecção.
Na sua essência fenomenológica e por redução eidética, a trilogia dialética permite, por simbolismo analógico, estabelecer paralelismos relacionais:
 - é o caso do ego que se associa com o tempo presente, o pensamento e respectiva intelectualidade assim como todas as defesas de carácter cognitivo;
 - é o caso do superego que se associa com o tempo passado, os afectos e sentimentos assim como as defesas relacionadas com a colocação no exterior de vivências pessoais do passado tipificadas em fenómenos de projecção ou transferência, com a respectiva resistência de transferência;
 - é o caso do id que se associa com o tempo futuro, os comportamentos e acções assim como as defesas relacionadas com a colocação no interior de aspectos próprios das pessoas frustrantes, com as quais o sujeito se relaciona, resultando mecanismos defensivos tipificados na identificação e introjecção;
A análise da relação é, agora, a análise dos laços ou ligações que se estabelecem entre, pelo menos, duas partes assumidas como autónomas e independentes. Relação é um dos conceitos fundamentais para a compreensão do universo em que nos movemos; desde ciências como a física e a química até aos aspectos bio-psico-sociais e culturais, das ciências humanas, o dinamismo da relação está sempre patente. No plano da conflitualidade relacional intra e interpsíquica, geradora de sofrimento, a abordagem da relação centrada na trilogia temporal do passado, presente e futuro, conduz a uma nova psicoterapia capaz de mudar ou erradicar comportamentos patológicos e, por isso, gerar mais saúde e felicidade humana.
Doutor Patrício Leite, 20 de Novembro de 2017

VIVER PARA SEMPRE


VIVER PARA SEMPRE: Porque a complexidade da estética também transcende o homem na finitude da vida.

JOGO DO CIÚME

O jogo do ciúme existe, precisamente, porque há três partes envolvidas: duas, o ciumento e o objecto desse ciúme, têm envolvimento directo, a terceira parte pode ser uma simples ideia, sem existência real. A terceira parte tem apenas manifestação passiva. Tradicionalmente a tónica é colocada na pessoa ciumenta que é descrita como insegura, com baixa auto estima e falta de auto confiança; também em termos do desenvolvimento emocional do ego se tem aceitado que a pessoa ciumenta teve dificuldade em ultrapassar o complexo de Édipo por falta de identificação com o progenitor do mesmo sexo; no entanto o ciúme é um sentimento ou, pelo menos, uma emoção que exige o envolvimento das três partes para se manifestar: o ciumento, o objecto desse ciúme e o terceiro envolvido. Sabe-se que o objecto de ciúme, numa fase inicial, sente-se lisonjeado, sente que é desejado e esse desejo confere-lhe segurança e satisfação mas esconde um sentimento mais profundo, esconde uma incapacidade de gostar de si próprio, de se aceitar como é, por isso aceita as manifestações de ciúme da outra pessoa. A terceira parte envolvida não possui dinamismo próprio mas resulta das características que o sujeito e objecto de ciúme, em negociação mais ou menos inconsciente, lhe decidem atribuir.
Com estas três partes e a triangulação resultante fica tudo preparado para o jogo do ciúme. Cada parte pode, como num drama, assumir o papel de perseguidor, salvador ou vitima; estes papéis poderão, por sua vez, ser redistribuídos e sofrer alterações ao longo do jogo.
Cada uma das pessoas directamente envolvidas no jogo do ciúme, designadamente o sujeito ciumento activo e o objecto passivo desse ciúme, pode adoptar uma das seguintes quatro posições de vida: eu estou bem e tu estás bem; eu estou bem e tu não estás bem; eu não estou bem e tu estás bem; eu não estou bem e tu não estás bem. Frequentemente cada uma das pessoas directamente envolvidas adopta a posição, eu não estou bem e tu não estás bem. Esta é uma posição destrutiva que no extremo do ciúme patológico conduz a comportamentos semelhantes à paranóia com aspectos comportamentais compatíveis com delírio de ciúme e convicção mais ou menos delirante o que se traduz, na prática, por comportamentos bizarros de perseguição e inadaptados à prossecução da relação amorosa por excessivo sofrimento infligido a ambas as partes. O ciumento fantasia outros objectos de amor, desejos de traição da pessoa amada, mas reprime esses desejos como indignos e, por isso, sabendo que ele próprio tem desejos de amor para com outra ou outras pessoas, portanto admite que também a pessoa por si amada os poderá ter; é a repressão desses desejos sentidos como indignos que leva o ciumento a projectar, a colocar na pessoa amada os seus próprios desejos e sentimentos reprimidos. O ciumento acredita que não tem valor, que é uma pessoa indigna e não merece o amor do objecto do seu ciúme e por isso não pode ser por ele amado; o ciumento acredita que não está bem, e não está bem porque o objecto do seu amor, ora ciúme, também não está bem; acredita também que o objecto de seu ciúme não está satisfeito com o seu amor e por isso irá procurar um terceiro elemento. O objecto de ciúme também acredita não estar bem, recebe as manifestações de desejo do ciumento com agrado mas sofre com as insinuações e acusações do ciumento, sofre com a acusação de que está vocacionado para uma terceira parte, sente-se incompreendido, sente-se incompreendido com o objecto do seu amor, sente que ama uma pessoa que não acredita no seu amor e, por isso, sente-se traído por entregar o seu amor a uma pessoa que o não recebe. O ciúme é o lugar do paradoxo, da traição sentimental, é o lugar em que ambas as partes amam sem ter amor, gostam desgostosamente; estão apaixonadas por uma pessoa real mas acreditam num ideal de traição amorosa bilateral; traem o amor que dão e recebem, acreditam que o amor, dado e recebido, não é genuíno, é um amor traído; ora agem com base no amor real sentido, ora agem com base na crença da traição amorosa idealizada.
Jogar o jogo do ciúme, é jogar o jogo de duas pessoas apaixonadas que não se sentem bem consigo próprias e, por isso, também se não sentem bem com os respectivos objectos de amor. Jogar o jogo do ciúme, é jogar o jogo de um ciumento perseguidor, que se sente vítima de uma traição amorosa; é também jogar o jogo de uma vítima de ciúme que persegue o ciumento, que o tenta manter envolvido na relação. O jogo do ciúme constitui um paradoxo confusional entre os papéis de perseguidor e vítima mantido por uma terceira parte idealizada que os salva e estabiliza a relação de sofrimento mútuo numa estruturação previsível do tempo intensamente sentido por um amor, raiva, inveja e ódio, tão grandes quanto a intensidade da relação patológica.
Doutor Patrício Leite, 1 de Novembro de 2017

JOGO DO AMOR

Vivemos uma época histórica cujo império da vontade individual determina e condiciona todo o tipo de interacções entre os seres humanos. O individualismo, enquanto valor fundamental, conduz a um vasto e enorme número de jogos nas interacções sociais; o jogo do amor é apenas um desses jogos. A análise do jogo do amor permite conhecer os jogadores nos aspectos mais profundos, mais recônditos, mais íntimos e escondidos da sua vida pessoal mas, primeiro é preciso compreender, no mínimo, os aspectos básicos dos jogos. Estruturalmente qualquer jogo é constituído por, pelo menos, dois jogadores e uma terceira parte que são as regras (com ou sem equipa de arbitragem, com ou sem espectadores) e um cenário ou teatro de operações consensualmente aceite por ambos. Funcionalmente os resultados do jogo são previsíveis pois, ou empatam ou um ganha e outro perde; no decurso do jogo há sempre lances escondidos e jogadas mais ou menos disfarçadas. Antes do início, cada jogador já tem um conjunto de habilidades, de capacidades adquiridas em treinos, ideias e experiências anteriores assim como tácticas e estratégias definidas mais ou menos inconscientemente.
O jogo do amor é um jogo de carícias, de carinhos trocados entre os jogadores que, aparentemente, procuram conduzir a um aprofundamento da intimidade. Frequentemente inicia quando os futuros amantes se encontram numa troca de olhares mais demorada e mais profunda. Seguidamente podem, ou não, esboçar um sorriso e desviar ou repousar o olhar para de seguida voltar à carga. Há, no entanto, outros modos de iniciar este jogo. Na próxima etapa a mulher, mas também o homem, desenvolvem comportamentos não verbais de cortejo e enamoramento com gestos disfarçados como alisar os cabelos, tocar com as mãos nos lábios, pequenas mordeduras dos lábios, tocar com as mãos ou arranjar as roupas em zonas do corpo com uma chamada de atenção sub-reptícia para os caracteres sexuais secundários distintivos; por vezes estes comportamentos não verbais e inconscientes são mais ousados com gestos muito disfarçados, esporádicos e aparentemente casuais que permitem delinear um trajecto apontado para os órgãos sexuais e zonas erógenas do corpo como, por exemplo, uma pessoa sentada repousando os braços e mãos em cima das pernas mas com os dedos, de certo modo, como que disfarçadamente apontando para os órgãos genitais. Muitos são os aspectos comportamentais, sobejamente descritos e conhecidos, para esta etapa do jogo mas, é a conjugação da postura, olhares, gestos e todos os comportamentos não verbais que, nesta fase, dá a cada um dos futuros amantes a convicção de que a outra parte está disponível para avançar, está disposta a jogar o jogo do amor. Cada um desenvolve uma expectativa crescente sobre o conteúdo e a forma como serão emitidas as primeiras palavras de cortejo; frequentemente surgem como aspectos banais, por vezes visam apenas a identidade social e cível da outra parte; quando já são previamente conhecidos pode algum dos futuros amantes efectuar, como que uma, mais ou menos, disfarçada declaração de sentimentos, de gosto, de desejo ou interesse. Após a troca das primeiras palavras procedem, os futuros amantes, a um aprofundamento da relação, a um aprofundamento da intimidade. É com as primeiras palavras que o jogo do amor inicia uma nova etapa; a partir daí a atenção, dedicada à outra parte, centraliza-se cada vez mais na linguagem verbal, naquilo que cada um diz mas também no modo como o faz, o seu modo de agir. A concentração da atenção dedicada à outra parte é cada vez maior, há também uma estruturação do tempo com crescente exclusão de estímulos e pensamentos que não conduzam directamente a essa relação amorosa nascente. Cada jogador procura, agora, estabelecer um compromisso da outra parte, um sinal claro e evidente, que inserido na cultura dos amantes, garanta a segurança da relação, do seu sentimento de amor e pertença; nesta cultura vigente, o beijo nos lábios, quando entregue por ambas as partes de modo intencional e dedicado, declara habitualmente a abertura oficial do jogo do amor. Progride-se imediatamente para novos beijos, abraços, encostos e palpações do corpo amado. É a corporalização do desejo num estado hipnótico de concentração no objecto amado. Neste jogo, cada parte avança para a relação com a carga do seu passado, leva consigo um guião capaz de estruturar a relação, capaz de estruturar o tempo de jogo. Sendo certo que os resultados do jogo do amor são bastante previsíveis também é evidente que em cada lance ou jogada há sempre uma finta, um segundo sentido escondido, um modo disfarçado que cada jogador adopta para enganar o adversário e, por vezes, a si próprio. É conhecendo a possibilidade do engano que os amantes, ora jogadores, se interrogam sobre a viabilidade e veracidade do amor que a outra parte lhes dedica. Cada amante não ama o outro, ama sim o amor que o outro tem para lhe oferecer, é por isso que, nos momentos de silêncio frequentemente interroga o outro, sobre o conteúdo do seu pensamento, procura saber o que o outro pensa, procura as juras de amor. Nesta fase, uma ambivalência cognitiva e decisional condiciona a relação; ora ama perdidamente ora pensa em largar o objecto da sua paixão, são as dúvidas, dúvidas de amor; é também uma fase de exaltação do ego narcísico com uma valorização hiperbólica da sua pessoa, de si própria; uma hipervalorização das suas capacidades para conseguir novos objectos de amor, é a ambivalência entre a desvalorização e destruição mental internalizada da pessoa amada, ora jogadora, e a sua veneração divinal. É nesta fase de ambivalência afectiva que se começa a delinear uma posição de vida, uma posição de jogo, uma posição estável e duradoura perante a outra pessoa, perante o outro jogador simultaneamente parceiro e adversário no jogo do amor. Assim, nesta etapa do jogo, cada jogador acaba por adoptar uma posição básica segundo a qual acredita e aceita que ambos estão bem, ambos estão mal ou então apenas um está bem e o outro mal. A posição básica de jogo adoptada irá estruturar o tempo e condicionar todo o desenrolar futuro do jogo, da relação amorosa. Se um jogador do amor acredita que está mal e o outro jogador está bem, pois irá adoptar uma posição depressiva que conduzirá a uma progressiva vitimização face ao outro; por outro lado o jogador que acreditar e tomar a posição de que está bem e o outro jogador do amor está mal, pois irá adoptar uma posição paranóica de perseguição ou então dirigir o jogo para ajudar o outro jogador a mudar e, nesta última situação, acredita e faz tudo para que o outro fique com uma melhor posição de vida, nem que para isso tenha de invadir a privacidade, independência e autonomia da vontade expressa pela parte oponente. A adopção desta posição básica face ao outro nem sempre é pacifica e conciliadora já que ambas as partes em jogo, ambos os jogadores do amor podem, em consequência do seu passado, tentar adoptar a mesma posição pela qual terão de concorrer. Por exemplo, se ambas as partes tentarem adoptar a posição de que não estão bem face ao outro, pois ambas terão de concorrer entre si pela vitimização numa tentativa da cada um ser considerado uma maior vitima do que o outro, ou seja, a verdadeira vitima, a única e verdadeira vitima; se não chegarem a um acordo e consenso, em que acreditem, sobre quem desempenha o papel de vitima pois ocorrerá a quebra da relação e ruptura do jogo do amor. Por outro lado, com a progressão natural do jogo, apesar da posição básica de vida adoptada, cada um agudiza o conflito intra-psíquico de entrega versus restrição; surgem os pensamentos de entrega total com perda da própria identidade e despersonalização versus restrição total com exaltação do egoísmo individualista e instrumentalização do outro como mero objecto sexual. Por vezes a ambivalência intra-psíquica crescente e a agudização extrema do conflito interior entre a entrega total e a restrição absoluta causa tanto sofrimento que conduz, nesta etapa, a rupturas que se traduzem na prática pelas histórias pessoais de variados curtos enamoramentos com relações sexuais amorosas esporádicas e experimentais. Estas rupturas no jogo surgem porque pelo menos um dos jogadores do amor abandona o jogo, larga e abandona o outro para não ser por ele abandonado. Apesar do intenso sofrimento de amor que o jogo agora proporciona, as juras de amor eterno são frequentes, por vezes com cenas de ciúmes e um desejo incontornável de manterem o contacto, de aprofundar a intimidade; nos momentos de exaltação do amor a necessidade de fusão corporal e mental é uma constante levada ao êxtase mas o sofrimento persiste. Para ultrapassar esse sofrimento surge a necessidade de encontrar uma terceira parte capaz de estabelecer, como que, um fiel da balança, um ponto de equilíbrio entre duas tendências opostas e conflituais: a tendência á entrega total versus a tendência à restrição total, com instrumentalização do outro jogador como mero objecto de prazer sexual. Essa terceira parte pode ser real ou imaginária, mas tem de existir, tem de se intrometer, tem de se manifestar e ser conversada e discutida entre os jogadores ora apaixonados, ora amantes do amor. Quando a relação é sadia e saudável essa terceira parte é constituída pelo desejo expresso de ter filhos, de os criar e educar, de constituir uma família duradoura e eterna; em situações mais patológicas e doentias essa terceira parte pode ser constituída por várias entidades, entre as quais frequentemente se encontra um ou vários objectos de ciúme capazes de infernizar o jogo, capazes de destruir a felicidade dos amantes jogadores; noutros casos também patológicos surgem situações de bode expiatório em que elementos da família de um, ou ambos os jogadores, não aprovam a relação o que leva os jogadores a se unirem precisamente para combater o ou os elementos da família que não aprovam a relação.
A formação da triangulação não é pacífica já que cada um dos jogadores tenta escolher a terceira parte que lhe permitirá a resolução do seu sofrimento conflitual; por exemplo um poderá ter preferência por escolher os filhos como a terceira parte envolvida enquanto o outro poderá escolher objectos de ciúme mas, uma coisa é certa, se a triangulação agora formada permite ultrapassar o conflito intra-psíquico também vai persistir durante toda a existência da relação, durante todo o jogo do amor. Chegados a esta etapa do jogo, os amantes poderão iniciar uma maior estabilidade relacional fundamentada na posição básica de vida, na triangulação e nas jogadas escondidas ou com segunda intenção; é assim que por exemplo, num casal vocacionado para ter filhos, se a mulher tem uma posição básica de vida segundo a qual acredita não estar bem mas que o outro está, pois pode viver a vida relacional a se vitimizar, a sentir que a fonte dos seus sofrimentos está no companheiro ou então na existência dos filhos; já o companheiro, se sentir que ele está bem e a mulher não está bem pois poderá viver a vida a perseguir a mulher em defesa dos filhos ou então a perseguir os filhos em defesa da mãe.
Com a triangulação e a formação de um triângulo de jogo, um triângulo dramático, um triângulo onde se vai desenrolar um drama, o drama de um família; fica estabilizado o jogo, o jogo do amor. A partir daqui, fica estabelecida a estrutura básica de toda a dinâmica social, de toda a dinâmica de grupos, de toda a dinâmica familiar, com fenómenos de liderança, rivalidades concorrenciais, alianças e comunicações entre os elementos do grupo etc.
Quando, no triângulo dramático, se exclui um terceiro elemento de natureza patológica como o ciúme, bode expiatório, ou outros como são os casos de terceiros elementos conceptuais de alcoolismo, drogas e comportamentos desviantes, pois resulta um triângulo dramático que é constituído por pai, mãe e filhos; este triângulo é mais saudável, já que procura a constituição e manutenção da prole em função da necessidade básica de reprodução e continuidade da espécie mas, ainda assim, podem existir várias formas de sofrimento familiar.
O jogo do amor, como todos os outros, implica transacções de carícias ou carinhos com lances ou jogadas mais ou menos escondidos, mais ou menos disfarçados; também a dinâmica do grupo familiar já estava, ao nível do pai e da mãe, como que escrita num guião, um guião dramático dos respectivos passados vividos, que agora apenas representam, seguem apenas o guião pelo que eliminar o sofrimento familiar consiste em descobrir e dar a conhecer a todos os jogadores envolvidos o modo como o jogo está estruturado no tempo e se desenvolve. Surge assim uma nova terapia, uma psicosocioterapia familiar; não uma terapia familiar com base nas teorias cógnitivo-comportamentais, não uma terapia familiar com base nas teorias psicanalíticas que, entre outros aspectos, defenda um objecto transicional de identificação projectiva a circular entre os vários elementos da família, não uma terapia familiar sistémica focalizada na comunicação e negociação de emoções entre os elementos da família, mas sim uma psicosocioterapia familiar que além de considerar todas as já referidas, contempla também transacções de carícias e carinhos com aspectos escondidos em jogadas assim como um psicodrama triangular num jogo: o jogo do amor.
Doutor Patrício Leite, 24 de Outubro de 2017

Hipnotismo

Desde as primeiras civilizações, pelo menos, que o homem sabe ser capaz de influenciar o seu semelhante, de lhe mudar as crenças, sentimentos, atitudes e comportamentos. As metodologias da influência hipnótica são muitas e variadas porém considera-se que se baseiam sempre na sugestão, a qual pode ser directa ou indirecta. A sugestão é, na sua essência, qualquer afirmação categórica sem a respectiva demonstração. A ausência de demonstração daquilo que se afirma implica imediatamente que a pessoa, objecto dessa afirmação, tem de acreditar no que lhe é afirmado; ainda que por absurdo não acreditasse, sempre se diria que qualquer demonstração, para se concretizar, necessita de premissas, axiomas, dogmas ou quaisquer tipo de afirmações apriorísticas que jamais podem ser demonstradas. Assim, se o fundamento do hipnotismo está na sugestão pois o fundamento da sugestão está na confiança. A vida em sociedade seria impossível sem confiança e todas as pessoas são, mais ou menos, sensíveis às sugestões. A criança ao nascer já vem apetrechada para acreditar, primeiro nos progenitores e depois nas outras pessoas. Se a sugestão permite a influência pessoal pois o hipnotismo vai mais longe, é uma influência pessoal mais profunda, é uma influência pessoal levada aos extremos, é o transe hipnótico. Para induzir o transe são emitidas sugestões hipnóticas indirectas e directas que se confundem com ordens para que o hipnotizado assuma determinado comportamento. Primeiro é necessário um trabalho de preparação em que a pessoa é levada a aceitar obedecer às sugestões que lhe vão ser dirigidas; depois a repetição lenta, monótona e imperativa de ordens ou sugestões, cada vez mais complexas, conduz o hipnotizado a um estado de aceitação passiva daquilo que lhe é ordenado com aparente obediência. A história da influência pessoal começou nos primórdios do instinto gregário, com o desenvolvimento dos primeiros agrupamentos de pessoas, com os primeiros feiticeiros das tribos, capazes de desencadear crenças e mobilizar vontades humanas; progrediu ao longo de muitos séculos até que mais tarde surgiu uma espécie de influência pessoal designada magnetismo animal que por sugestões indirectas induzia o transe hipnótico; esta influência tomou finalmente a designação de hipnotismo. Há comportamentos constantemente presentes em todas as sessões em que são induzidos transes hipnóticos, por exemplo da parte do sujeito hipnotizado verifica-se, entre outros, uma certa perda da real noção do espaço e do tempo durante o qual decorreu a sessão, uma intensa concentração da atenção na figura do hipnotizador com exclusão de todos os estímulos que dele não sejam provenientes assim como uma aparente e pronta obediência às suas ordens, por outro lado, da parte do hipnotizador há também uma concentração muito grande no trabalho a realizar com os sujeitos em transe pelo que essa relação, a relação hipnótica, exige uma sincronia empática muito intensa entre hipnotizado e hipnotizador tornando-se a realização repetitiva de sessões hipnóticas, ao longo do tempo, fastidiosas para o hipnotizador. As modernas teorias do comportamento e das ciências mentais procuram explicar os comportamentos relacionados com o transe hipnótico com base nas suas premissas assim, pela teoria social o papel e estatuto do hipnotizado está bem estabelecido pelo que apenas é preciso encontrar quem o represente, pela teoria psicanalítica refere-se um afrouxamento do ego, pela teoria comportamental apontam-se reflexos condicionados associados aos comportamentos emitidos, pela teoria sistémica aborda-se também a comparticipação dos espectadores no desempenho de todos os papéis e estatutos envolvidos. O desenvolvimento do hipnotismo esteve sempre envolvido em certa controvérsia, ainda hoje se discutem os seus poderes, os poderes da mente; na realidade, por mais espectacular que seja a sessão hipnótica, por mais magnífica que pareça, o certo é que o hipnotismo não permite ultrapassar as condicionantes das leis físicas e químicas, nem sequer atingir todo o potencial da mente humana, porém a sua compreensão é muito útil já que ainda no presente, e apesar do enorme desenvolvimento científico e tecnológico, toda a influência pessoal obedece aos princípios do hipnotismo pelo que conhecer o hipnotismo é conhecer as leis que determinam a influência pessoal.
Doutor Patrício Leite, 9 de Outubro de 2017

Ego

As três instâncias do aparelho psíquico, nos seus aspectos tópico, económico e dinâmico remetem para uma analogia fundamental com a cultura ocidental dominante. Na realidade, foi esta cultura que permitiu a eclosão conceptual de um aparelho mental dinamicamente tripartido em ego, superego e id que mais tarde, foi também designado por outros pensadores com terminologias como ça, moi e surmoi ou também criança, adulto e pai, entre tantas outras denominações; tudo em plena analogia semântica com a referida cultura ocidental.
Desde a sua concepção, a etiologia desenvolvimental do ego sempre delineou um conflito entre a sua aproximação ao id ou, por antagonismo, ao superego. Caracterizar o ego por um agrupamento de mecanismos defensivos, mais ou menos inconscientes, mais ou menos pré-conscientes e, mais tarde assumir a identidade egóica como o mecanismo de defesa fundamental na constituição e análise da personalidade, da persona, da máscara; transporta a análise do aparelho psíquico para uma análise da pessoa instituída; neste sentido, a análise da identidade defensiva pela génese, estrutura e função mais não é do que a análise original da pessoa concreta que se defende. Assim, tornar-se pessoa é tornar-se numa identidade, numa máscara identitária, e destrói-se a pessoa quando apenas e meramente se destrói a sua máscara, a sua identidade. A conceptualidade dualística da identidade comporta sempre a coexistência coincidente entre uma componente interna ou de autoreconhecimento e uma externa ou de heteroreconhecimento; quando ambas, ou qualquer uma destas componentes deixou de ser reconhecida como era, também a identidade pessoal se extraviou, se perdeu, a pessoa deixou de ser quem era ou pelo menos sofreu uma mudança profunda, uma mudança fundamental. Sendo certo que o ego, manifesta e usa uma vasta quantidade de diferentes mecanismos defensivos à sua disposição, é também pertinente a associação entre o mecanismo defensivo identitário a um ego que se torna pessoa. Nesta contextualidade tripartida da cultura ocidental, analisar este mecanismo de defesa, a identidade, é conhecer a sua génese, estrutura e função. Tradicionalmente aceita-se que a génese da identidade está na aproximação, por semelhança, com o agressor, com aquela identidade agressora que causa necessidades, privações e sofrimentos; a função identitária, enquanto semelhança com o agressor, forte e poderoso, é para o ego o mecanismo pelo qual tenta superar a sua frustração, tenta ser tão forte e poderoso quanto o agressor que o frustra e, por isso, com ele se identifica; já no plano da estrutura identitária defensiva, esta funde-se e confunde-se com a pessoa concreta nos aspectos da sua individualidade característica.
O conhecimento intuitivo de um aparelho mental tripartidarista, favorece um ego intermediário que ora se aproxima do id, procurando satisfazer as respectivas pulsões sexuais; ora se aproxima do superego moralista na crítica mordaz a quem apenas satisfaz a sua sexualidade; é na mobilidade deste mecanismo conflitual de atracção – repulsão, em intrínseca relação simbólica com a sexualidade, que a mobilidade do ego faz uso pleno das suas defesas, dos seus mecanismos defensivos porém, a identidade enquanto pessoa, a persona, a máscara identitária procura manter a coerência externa e a coesão interna. Assim a identidade defensiva, ou defesa identitária, manifesta a necessidade da sua manutenção evitando a fragmentação e promovendo a unidade do ego, a unidade de eu, o individuo; portanto, a pessoa individual que se autoreconhece e reconhecida como tal, é apenas uma defesa que se defende.
Um aparelho mental repartido por três instâncias somente exerce a sua funcionalidade quando aplicado a mentes tão patológicas quanto a cultura ocidental que as origina. Por um lado o superego enquanto conjunto de normas morais sexualmente repressivas e internalizadas constitui um obstáculo interno à satisfação das necessidades e pulsões sexuais do id, por contraposição a realidade exterior tanto poderá ser frustrante como facilitadora na satisfação dessas necessidades; por outro lado o ego tem sempre tendência a se aliar, ora ao superego ora ao id, numa constante tentativa simbólica de resolver a conflitualidade patente entre as necessidades do id e os constrangimentos do superego. Nesta realidade cultural doentia a analogia simbólica, ou o simbolismo analógico, é uma ferramenta imprescindível para a compreensão da sexualidade humana. Uma cultura saudável não é aquela que apenas tenta erradicar o superego impondo uma cultura do prazer, impondo uma moral radical; uma cultura saudável não nega, não reprime nem combate o prazer mas tenta também uma aproximação do ego ao id, não um id exclusivamente de prazer mas um id de reprodução, pois essa é a sua função vital. Numa cultura saudável o tripartidarismo do aparelho mental será substituído por um dualismo irreconciliável entre a constância do meio interno e os constrangimentos do meio externo na manutenção da função reprodutora enquanto precursora da continuidade da vida.
Doutor Patrício Leite, 7 de Outubro de 2017