Emoções

O corpo humano tem um sistema de receptores capaz de receber estímulos, que organiza em informação cognitiva, provenientes do meio interno e do meio externo. Em termos das estruturas cognitivas responsáveis pelo processamento dos estímulos e organização da informação distingue-se tradicionalmente a sensação, como sendo a captação de estímulos e respectiva excitação inicial, da percepção como implicando já um certo reconhecimento, uma tomada de consciência da natureza do estímulo. Enquanto a sensação se localiza apenas ao nível da estimulação dos receptores sensoriais; já a percepção implica uma certa centralização da informação com intervenção de mecanismos cognitivos mais complexos como sejam, entre outros, a atenção, a memória e a vontade.
No domínio do conhecimento mental fala-se frequentemente de emoções, afectos, sentimentos e humor como algo completamente distinto dos mecanismos cognitivos; no entanto recentemente tem sido efectuado um esforço para juntar ambos os aparelhos num funcionamento integrado. Apesar de as terminologias respeitantes à vida sentimental se mostrarem vulgarmente confusas e pouco esclarecedoras, parece razoável aceitar os afectos como sendo emoções associadas a ideias e os sentimentos como sendo emoções associadas a comportamentos motores; as variáveis implicadas, os conceitos e respectivas designações são muito diversificados, por exemplo, o humor é um termo ou palavra que tanto se pode referir a uma tonalidade afectiva como sentimental relativamente estável e duradoura no tempo.
Nas situações afectivas e sentimentais, há sempre uma certa percepção, uma certa compreensão cognitiva consciente de que existe emoção envolvida numa relação com determinada ideia ou comportamento; a pessoa sabe o que sente e consegue-o relacionar com objectos externos e comportamentos ou então com ideias internas; os sentimentos e afectos envolvem as estruturas cognitivas evoluídas, próprias da percepção, dos raciocínios e da interpretação abstracta; já a emoção fica aquém da percepção e restantes estruturas cognitivas, a emoção localiza-se entre a sensação e a percepção; frequentemente a pessoa emocionada desconhece a sua emoção, o seu estado emocional, e quando sabe deduz esse conhecimento meramente através de meios e mecanismos indirectos como o batimento cardíaco ou o rubor facial, entre vários outros; a pessoa emocionada não percepciona, apenas sente, por vezes quase que toma algum conhecimento de uma certa polaridade positiva ou negativa, mas sabe apenas que se sente bem ou mal, porém desconhece tudo o restante relativo às suas emoções, por isso se afirma que a emoção se localiza em termos cognitivos entre a simples sensação e a percepção.
A bioquímica da contracção muscular ao descobrir a responsabilidade de polímeros macromoléculares proteicos de substâncias como a actina e a miosina, entre outras, permitiu as bases moleculares de todo o comportamento motor; o pensamento e restante comportamento cognitivo parecem existir, nos seus fundamentos físicos e químicos mais elementares, nas alterações estereoisoméricas conformacionais dinâmicas de moléculas neurotransmissoras, respectivos receptores e enzimas envolvidas no seu metabolismo; as emoções parecem ser, na sua essência, reacções bioquímicas de determinadas moléculas cuja duração no tempo depende da actividade biocatalítica das respectivas enzimas envolvidas. O modelo aqui proposto permite explicar a rapidez das ideias no fluxo do pensamento, já que se trata de um mero fenómeno físico consistindo apenas em alterações estereoisoméricas de conformações moleculares; as emoções instalam-se de modo mais lento pois consistem em reacções bioquímicas cuja cinética depende também da saturação enzimática; os movimentos motores são ainda mais demorados, na sua execução, pois realizam-se à custa de alterações macromoléculares com envolvimento de reacções físicas e químicas.
Noções como os afectos, que envolvem ideias e emoções, fazem pensar em alterações estereoisoméricas de conformações moleculares em íntima associação com reacções bioquímicas, dai a sua volatilidade; por exemplo, uma pessoa com síndrome depressivo que chora ao relatar um acontecimento triste, quando se lhe propõe que pense e fale concretamente de algo sabidamente mais alegre, imediatamente começa por esboçar um sorriso, podendo até chegar a rir abertamente; por outro lado os sentimentos, que se associam a emoções com comportamentos motores, são mais complexos em termos físicos e químicos, aos níveis micro e macromoléculares, e portanto mais difíceis de estabelecer mas também mais duradouros; os sentimentos podem eventualmente envolver as macromoléculas proteicas da contracção muscular em íntima associação com reacções químicas dos neurotransmissores existentes na placa motora da junção neuromuscular. O modelo explicativo aqui exposto permite descrever os fundamentos teóricos, ao nível físico e químico, não apenas das emoções mas também dos pensamentos e acções numa relação interactiva integrada de todo o comportamento humano.
Doutor Patrício Leite, 23 de Fevereiro de 2018

Bioisótopos e consciência

Elementos químicos, ou átomos, que têm o mesmo número de protões e de electrões mas diferente número de neutrões designam-se por isótopos. As propriedades químicas dos isótopos não variam já que estas apenas dependem do número atómico, que é igual para todos os isótopos do mesmo elemento químico; no entanto as massas dos isótopos são diferentes e, por conseguinte, as respectivas densidades, pelo que propriedades físicas como os pontos de fusão ou ebulição são também diferentes. Há forças que se estabelecem entre as moléculas de uma substância que determinam não só os estados sólido, líquido e gasoso dessa matéria mas também outros aspectos como a solubilidade e até as estruturas conformacionais estereoisoméricas; essas forças intermoleculares como a força de Van der Waals, as forças entre dípolos dos quais um, ou ambos, pode ser induzido ou permanente, e as designadas pontes de hidrogénio, relacionam-se com os isótopos através das diferentes densidades que, em determinado elemento químico, estes apresentam, mas também permitem a coesão e manutenção da estrutura entre diferentes substâncias.
Os isótopos que entram na constituição da matéria viva são aqui designados bioisótopos e, apesar da sua grande abundância, as ciências da vida não se têm dedicado muito a esta área da investigação científica; no entanto, há certos métodos relacionados com a análise química orgânica como a espectrometria de massa mais a cromatografia, sobretudo gasosa, que têm sido amplamente desenvolvidos no sentido da análise de misturas orgânicas complexas com aplicações na ecologia, biologia e indústria agro-alimentar, mas também na geologia, meteorologia e clima, assim como várias outras. Compreende-se que os isótopos, estáveis e sem qualquer decaimento radioactivo, só por entrarem na constituição dos seres vivos já têm implicações nas suas propriedades físicas e respectivas reacções bioquímicas. Os elementos carbono, hidrogénio, oxigénio e azoto, presentes em toda a matéria viva, têm vários isótopos estáveis cujas percentagens dependem do ambiente; a manutenção das percentagens assim como o turnover destes elementos e de vários outros, nos organismos vivos, tem implicações fisiológicas e funcionais que a ciência ainda desconhece.
Acreditando na teoria evolucionista da selecção natural, não se sabe o contributo das diferentes percentagens de isótopos ambientais para a adaptabilidade e flexibilidade dos diferentes seres vivos em luta pela vida, num ambiente em permanente mutação. Não se sabe o contributo da composição e percentagem, no organismo humano, de isótopos para a diferença inter-individual entre os seres humanos assim como o contributo para o binómio saúde – doença. Aceita-se que a consciência seja frequentemente definida como uma capacidade, ou faculdade, que a pessoa tem de se reconhecer a si própria e aos estímulos provenientes do meio envolvente. Aceita-se que em termos neuroanatómicos a responsabilidade pelo estado acordado, vigilante ou da consciência, se localiza no sistema activador reticular ascendente e são vários os neurotransmissores envolvidos entre os quais se destaca a acetilcolina; também é concebível que o neuroelectromagnetismo das forças intermoleculares determinante da estereoisomeria conformacional molecular dinâmica da acetilcolina, responsável por mecanismos cognitivos, possa estar associado com a consciência mas não se sabe qual é o contributo dos isótopos constituintes das moléculas neurotransmissoras e das suas moléculas receptoras, para o funcionamento da consciência e dos respectivos processos cognitivos.
O desenvolvimento geral e da medicina em particular, caminham conjuntamente com a nanotecnologia para uma compreensão cada vez mais molecular e inframolecular dos fenómenos e ocorrências científicas; a medicina molecular, apesar de ser uma disciplina científica recente tem, na medicina isotópica, uma vasta área de investigação para explorar. A medicina isotópica do futuro permitirá compreender, entre tantos outros, fenómenos cognitivos como a memória, o pensamento e restantes mecanismos da consciência.
Doutor Patrício Leite, 11 de Fevereiro de 2018

Química electromagnética do pensamento

Há na história do pensamento humano, uma corrente que admite a metodologia dialéctica como fundamento do progresso evolutivo; segundo a dialéctica da acção e do conhecimento, na fase antitética torna-se impossível descobrir se o início ou partida se faz da acção concreta para o conhecimento abstracto ou se ocorre o inverso, sabe-se no entanto que ambas caminham interligadas e sofrem mútua influência recíproca.
Observar o desenvolvimento cognitivo das crianças permite descrever o modo como estas adquirem a linguagem e o pensamento. A criança começa por observar atentamente o ambiente familiar em que se insere; por imitação, com tentativa e erro, começa aos poucos a emitir pequenos sons guturais, continua a balbuciar pelo que se vai sucessivamente definindo um som conhecido; para alegria dos pais, surge a primeira palavra. Continua a imitação, continua a aprendizagem, surgem mais palavras, surgem os conceitos e ideias abstractas associadas às palavras vocalizadas. Observando pormenorizadamente a evolução do desenvolvimento cognitivo infantil, verifica-se que primeiro começam a definir-se respostas ou reacções de familiaridade para estímulos e sensações correspondentes aos rostos e figuras conhecidas, a criança aprende a percepcionar e memoriza os objectos da sua percepção, depois imitando, emite sons guturais perante a proximidade dessas figuras conhecidas, seguidamente balbuciando aperfeiçoa-se e consegue vocalizar a palavra correspondente, finalmente aprende e vocaliza mais palavras. Estas observações conduzem à ideia de que, no desenvolvimento do ser humano, primeiro surgem os comportamentos voluntários externamente observáveis, posteriormente são-lhes associadas ideias ou conceitos abstractos, finalmente surge o pensamento como fluxo de ideias.
A ciência tem demonstrado que todos os movimentos, actos, acções ou comportamentos humanos são realizados através da contracção ou relaxamento da musculatura, lisa ou estriada; por outro lado os comportamentos ou acções voluntárias, portanto dependentes da vontade e, por conseguinte, do pensamento, são realizados pela musculatura estriada (com excepção do musculo estriado cardíaco); também na dinâmica do sistema nervoso somático, dependente da vontade consciente e do pensamento, mais precisamente na placa ou junção neuromuscular, o neurotransmissor encontrado é a acetilcolina.
Quimicamente a acetilcolina é um ester resultante de uma reacção de esterificação entre o ácido acético ou etanóico e o grupo hidroxilo da colina, esta última é também designada por (2-hidroxietil)trimetilamónio; ao nível do organismo a biossíntese da acetilcolina inicia-se a partir da fosfatidilcolina que origina a colina, por outro lado, a colina junta-se com um grupo acetilo proveniente da acetilcoenzima A; a respectiva reacção de síntese é catalisada pela enzima colina-acetiltransferase, já a reacção de degradação é catalisada por outra enzima, a acetilcolinesterase.
Tem-se verificado que os inibidores da acetilcolinesterase podem ser altamente letais pelo que, sobretudo os organofosforados, são utilizados na guerra química e conhecidos como agentes de nervos, no entanto, alguns inibidores da acetilcolinesterase, como a rivastigmina ou o donepezil, podem ser medicamentos usados no tratamento dos sintomas cognitivos da demência como a doença de Alzeimer.
A observação da aquisição da linguagem e do pensamento, ao longo do desenvolvimento infantil, associada com o conhecimento neurohistoquímico da transmissão colinérgica, dependente da vontade e do pensamento, desde a placa ou junção neuromuscular até ao sistema nervoso central, conjugada com os medicamentos inibidores da acetilcolinesterase, que melhoram os sintomas cognitivos da doença de Alzeimer, conduzem à ideia de que os estímulos externos alteram os receptores sensoriais dos órgãos dos sentidos que, por sua vez, vão alterar os receptores colinérgicos do sistema nervoso somático; a alteração dos receptores colinérgicos, que surge em função dos estímulos externos, é transmitida para a acetilcolina que muda a sua estrutura estereoisomérica conformacional dinâmica molecular; a alteração conformacional, da acetilcolina, provoca mudanças conformacionais estereoisoméricas em receptores colinérgicos ao longo do sistema nervoso central; a interacção dialéctica recíproca entre as estruturas conformacionais estereoisoméricas dinâmicas dos receptores, somáticos e do sistema nervoso central, da acetilcolina com a respectiva molécula, é responsável pelo pensamento, memória e restantes mecanismos cognitivos.
As moléculas interagem através de forças que têm natureza eléctrica e magnética; nos seres vivos, as forças intermoleculares são frequentemente responsáveis pelas estruturas estereoisoméricas conformacionais das respectivas moléculas; no organismo humano há imensos neurotransmissores e respectivos receptores que em conjunto são responsáveis pelos aspectos cognitivos e cujas estruturas conformacionais resultam da interacção molecular recíproca através de forças eléctricas e magnéticas; as estruturas conformacionais moleculares correspondem às ideias e a sua alteração dinâmica corresponde ao fluxo das ideias, isto é, ao pensamento; a química electromagnética do pensamento associada às alterações conformacionais estereoisoméricas moleculares torna possível a existência de muitos milhões de ideias cujo fluxo permanente não altera significativamente o organismo humano.
Tem-se verificado que cada pessoa, ao longo da sua evolução, aprende a linguagem a partir do uso da musculatura estriada da fonação; posteriormente vai-se desenvolvendo o pensamento como uma forma “silenciosa” de contracção dos músculos voluntários da fonação; o conhecimento dos neurotransmissores e respectivos receptores da junção neuromuscular em conjugação com a teoria das estruturas estereoisoméricas conformacionais moleculares permite agora dar consistência e coerência lógica à influência da química electromagnética intermolecular como mecanismo fundamental do pensamento humano, da memória e restantes estruturas cognitivas.
Doutor Patrício Leite, 5 de Fevereiro de 2018

Vontade

A individualização da vontade humana, enquanto objecto de atenção tem, ao longo dos tempos, conduzido às mais diversas conclusões próprias de cada época histórica e cultural. Primeiro foi necessário o seu reconhecimento como uma propriedade mental isolada, única e inerente aos seres humanos, depois surgiram várias teorias e pensamentos filosóficos que a relacionaram com a liberdade, designadamente, e para começar, com a teoria do livre arbítrio. É conhecido que a teoria do livre arbítrio, da autonomia da vontade e da liberdade, transporta imediatamente o pensamento para algo mais profundo; é a noção do determinismo versus indeterminismo humano como dialéctica irreconciliável do antagonismo cognitivo em noções filosóficas fundamentais; é também, numa analogia indissociável, a antítese dialéctica entre o finito determinado e o infinito indeterminado numa abrangência total com um destino predefinido, finito e predeterminado versus um construtivismo humano infinito, positivo e indeterminado que conduz ao conflito mental numa interrogação sobre o comportamento, questionando se o homem age ou é agido.
Por definição, a vontade implica sempre num certo antagonismo, há como que uma força, uma resistência a vencer; quando as acções voluntárias incidem sobre um ambiente externo natural, a resistência diz apenas respeito ao atrito como força passiva que se opõe a qualquer acção, por outro lado, se o exercício da vontade e da acção voluntária se faz sobre um ambiente humano, então a resistência resulta de uma vontade oposta que se contrapõe numa confrontação de vontades.
Considerar o ser humano capaz de tomar decisões autónomas é também considerá-lo como livre e voluntário; livre porque tem poder de decisão e voluntário porque exerce esse poder. A vontade surge como um poder, uma capacidade de decidir, de tomar decisões; por outro lado a decisão é entendida como uma conversão de recursos com a finalidade de atingir objectivos próprios ou pessoais. Portanto, no momento da tomada de decisão, do exercício da vontade, os objectivos ainda não foram atingidos assim, há uma diferença temporal entre o momento presente, o momento em que a decisão é tomada, e o momento futuro, o momento em que os objectivos são alcançados; essa diferença, esse caminho a percorrer, consiste na resistência que se opõe ao exercício da vontade. É pela acção, pelo comportamento, que a vontade se realiza, que atinge a sua plenitude, que abandona o mero desejo, a mera manifestação de intenções, para se concretizar. A vontade implica sempre um comportamento consciente com várias componentes mentais; há um propósito da consciência em alcançar determinados fins, determinados objectivos conhecidos, mas há também uma intenção em usar os recursos adequados à consecução desses objectivos; os recursos são necessários porque surge sempre uma resistência mas a força conativa da vontade, a volição consciente, apoiada nas memórias do passado, das vitórias e dos fracassos, mas também dos afectos, sentimentos e emoções, permite a constância do esforço em direcção aos objectivos previamente determinados. As carências e necessidades causam desejos que, para sua satisfação, dirigem energicamente a atenção concentrada para determinadas finalidades, porém se, neste sentido o comportamento não pode ser evitado, também é certo que os hábitos e costumes pessoais condicionam inconscientemente o desenrolar da acção humana, por isso é importante conhecer a história e antecedentes da pessoa.
As tendências gregárias do ser humano conduziram à família como grupo primário; desde o nascimento que a criança é educada num certo ambiente cultural, próprio de todos e cada pessoa, mas também num nível de educação que lhe condiciona o trabalho e profissão, os lazeres, o tipo de amigos e a estruturação do tempo; também a economia pessoal, os hábitos de consumo e muitos outros factores de ordem social condicionam o comportamento geral da pessoa numa relação estreita com a tomada de decisões, é pois necessário compreender o ambiente geral em que a pessoa concreta se insere, para assim melhor lhe conhecer a vontade.
Qualquer decisão voluntária, autónoma e independente, é um produto da consciência, há no entanto comportamentos cujas origens motivacionais radicam num inconsciente tradicionalmente abordado pelos métodos psicanalíticos. Nem sempre é fácil alcançar o subconsciente; desde há vários séculos que o uso do hipnotismo tem sido utilizado para implantar ideias e atitudes no íntimo das pessoas. Ainda antes das descobertas psicanalíticas, já os utilizadores de técnicas hipnóticas sabiam que a sugestão constituía, e constitui, um poderoso método de entrar no subconsciente da pessoa; sabiam também que o consciente se defende dessas sugestões, por isso aconselhavam a repetição, da sugestão, em variadas e diferentes oportunidades a fim de que num momento de maior fraqueza do consciente, essa sugestão pudesse entrar no inconsciente; sabiam que uma vez implantada a sugestão, a pessoa, mais tarde ou mais cedo, iria ter a sua actividade autónoma da vontade diminuída, agindo e tomando decisões em conformidade com a respectiva sugestão.
Foi na sequência da abordagem hipnótica, como modo de alcançar o inconsciente, que surgiu outro método com o mesmo propósito, aliás; a palavra hipnotismo tem a sua origem etimológica associada ao sono e o estado hipnótico sempre foi pensado como uma espécie de sono semi-acordado assim, quando se estudaram os sonhos como actividade mental realizada durante o sono, imediatamente se verificou que interpretar o produto, ou as imagens oníricas dessa actividade, em termos simbólicos, conduzia imediatamente ao inconsciente; por outro lado, a associação livre surgiu como uma tentativa de abordagem ao subconsciente capaz de revelar conflitos intrapsíquicos causadores de sofrimento; na realidade, enquanto uma pessoa tenta livremente relatar todas as ideias que lhe vão fluindo pela consciência, essa pessoa encontra emoções e afectos causadores de constrangimentos que a levam a defender-se mudando de assunto, fazendo pausas na fluidez do discurso ou outros mecanismos de defesa, surge então outra abordagem do inconsciente que consiste em analisar e dar consciência à pessoa dos seus mecanismos de defesa, isto é, daquilo que se defende, do modo como se defende e quando começou a usar esse modo de se defender; mas a pessoa também pode realizar desvios do discurso por ficar embaraçada com aquilo que julga o interlocutor poder pensar ou sentir acerca dela, portanto objectivando a sua relação interpessoal com o interlocutor, nestas situações pensa-se numa relação de transferência em que a pessoa revive e coloca no seu interlocutor as emoções e sentimentos que antes, no passado, teve para com figuras significativas como os seu pais ou outros. As situações que não se encaixam coerentemente no contexto de uma relação comunicacional designam-se actos falhados; estes actos involuntários podem ir de aspectos muito simples como lapsos de memória ou esquecimentos até comportamentos mais elaborados e complexos mas envolvem sempre situações de tendências intrapsíquicas conflituais, expressas à consciência de modo simbólico; o subconsciente ou inconsciente manifesta-se sempre de modo simbólico e a analogia é o modo privilegiado de o compreender; as necessidades inconscientes, revestem frequentemente natureza sexual e conduzem o comportamento humano na tomada de decisões cujo simbolismo sexual é compreendido através da abordagem analógica pelo que conhecer esse simbolismo causal é também ser capaz de conseguir influenciar as respectivas decisões e assim determinar a vontade.
Sempre que duas pessoas se encontram, a comunicação torna-se inevitável; a par de uma linguagem verbal capaz de exprimir ideias, conceitos e raciocínios abstractos, existe uma linguagem corporal que informa sobre as atitudes e tendências desenvolvidas na respectiva interacção e relação interpessoal. Nos comportamentos de enamoramento e paixão, cuja sexualidade latente, cheia de tabus, está sempre presente, a compreensão da relação com base na linguagem corporal torna-se fundamental, já que os sentimentos e desejos não podem ser expressos abertamente; também nas relações de poder e estatuto social, com um culto do carisma e da personalidade mais ou menos desenvolvido e manifesto, se torna importante o uso sugestivo da linguagem não verbal e estruturação do espaço físico como modo de acentuar, ou diminuir, as características que se deseja dar relevo e importância; há quem afirme ser capaz de descobrir, meramente pela observação da linguagem corporal, o conteúdo e a falsidade de mensagens, no entanto, esta modalidade de comunicação permite apenas grande certeza na descoberta e conhecimento de atitudes como a sinceridade ou a mentira, o conhecimento do conteúdo comunicacional tem de ser descoberto através da conjugação com outros métodos de abordagem porém, o uso dos gestos e posturas corporais como modo de influenciar pessoas tem grande importância nas designadas posturas em espelho; segundo a metodologia própria do espelhamento, uma pessoa que disfarçadamente copia as posturas e gestos de outra, o seu interlocutor, tem maior probabilidade de gerar apreciação, simpatia e amizade, conseguindo determinar a vontade alheia através da influência facilitada pela confiança que sempre se desenvolve nas relações de amizade; entretanto, de um modo geral, pode-se afirmar que compreender a pessoa nas suas atitudes e desejos mais recônditos permite sempre definir melhores estratégias de influência e controlo da vontade.
Determinar o comportamento alheio é, fundamentalmente, impor-lhe um conjunto de condições; a teoria e métodos comportamentais, para dirigir e condicionar a vontade, procuram sempre colocar condições; restringem a satisfação de necessidades à obediência comportamental; compreender o comportamento condicionado é muito simples mas a sua execução muito variada; desde o uso dos elogios como recompensa ou reforço positivo até atingir a crítica social como punição ou reforço negativo, tudo é valido; para necessidades sociais como a amizade e o prestígio são utilizados aspectos sociais ou interpessoais como o elogio a servir de recompensa ou a crítica que pune. Outros métodos de condicionamento não se baseiam na visão teleológica do comportamento cujas consequências podem reforçar positiva ou negativamente essa conduta mas, tão-somente, numa associação simples e repetida de estímulos. Sabe-se que os adjectivos qualificativos exprimem sentimentos, emoções e afectos; sabe-se que associando repetidamente um conceito ou ideia com um adjectivo qualificativo, positivo ou negativo, a pessoa exposta a essa associação vai, ao longo do tempo, desenvolver uma atitude positiva ou negativa em face da ideia primitiva de acordo com o adjectivo que foi utilizado; o condicionamento de atitudes pelo método da associação entre ideias e adjectivos é muito utilizado para determinar a vontade e influenciar a tomada de decisões mas, são as necessidades que constituem a maior força da energética motivacional. Compreender a teoria das necessidades é entender que os estados de carência interior vão imperiosamente procurar satisfação no meio externo, no entanto, a prioridade dessa satisfação faz-se de acordo com uma hierarquia de necessidades mas também atendendo à percepção e crenças enraizadas na memória pessoal; influenciar as crenças é, portanto, influenciar a atitude volitiva na conduta a escolher para a satisfação das necessidades, é também influenciar os comportamentos resultantes da frustração, ou seja, da impossibilidade de satisfazer, total ou parcialmente, certas carências.
A vontade humana, enquanto culminar de todas as características e forças mentais, ocupa o topo da pirâmide decisional, por conseguinte, a sua implementação implica sempre num avanço vitorioso sobre uma resistência que se lhe opõe; o enfraquecimento da vontade é um modo privilegiado de conseguir influencia e controlo facilitados; a fadiga, o cansaço físico e mental, os métodos químicos com drogas, incluindo o álcool, os fármacos e tantos outros, ajudam a debilitar a vontade e facilitar o seu controlo por entidades alheias; as técnicas de enfraquecimento da vontade são muitas e variadas e, cada vez mais, crescem em número e variedade, apenas dependendo da criatividade de quem as utiliza; são conhecidas técnicas clássicas desde a diversão, entretenimento e brincadeira, até ao uso lúdico da actividade sexual como modo de debilitar a vontade e diminuir o antagonismo, entretanto, grande parte da investigação em manipulação humana faz-se no sentido de descobrir novos modos de controlar a vontade e a autonomia decisional.
A história do condicionamento manipulatório da vontade, começou a desenvolver-se com o avanço civilizacional; cedo o homem notou que com certas técnicas, sobretudo de oratória, conseguia mais facilmente conduzir os seus semelhantes para o ajudar a concretizar os seus propósitos pessoais. A retórica chegou a ser uma das três artes fundamentais ensinada nas universidades da idade média; o seu ensino universitário continuou, não tão intenso, pela época moderna, actualmente ainda faz parte dos programas do ensino curricular oficial pré-universitário mas também se ministra integrada em várias disciplinas universitárias de carácter humanista.
Desenvolver um discurso retórico convincente e capaz de influenciar o auditório e os ouvintes implica numa preparação pela qual o orador tem de, primeiro, ganhar a confiança das pessoas demonstrando que sabe daquilo que fala, que é um especialista, culto e sabedor, do assunto; o papel social e o estatuto do orador, manipulador da vontade, assim como as crenças e respectivas atitudes dos ouvintes são muito importantes na fase inicial, de facto, são as pessoas que têm uma atitude prévia de acreditar, ou não, nas palavras do orador; a adequação das ideias e raciocínios ao auditório permite a sua compreensão facilitada, na realidade, para convencer o auditório, é fundamentalmente necessário debitar palavras, conceitos e raciocínios inteligíveis e possíveis de ser facilmente entendidos pelos ouvintes, de outro modo toda a tentativa de manipulação da vontade alheia pode ser frustrada por se tornar impossível de concretizar; há em todo o discurso persuasivo e com intuito de convencer, ou determinar, o curso decisional da autonomia volitiva, uma etapa que faz apelo directo e incondicional às emoções, afectos e sentimentos; as designadas figuras de estilo linguístico desempenham a função de apelar às emoções permitindo a ligação, ainda que meramente aparente, entre o raciocínio e os sentimentos; as figuras de estilo são muitas e variadas, para as categorizar podem ser adoptadas diferentes classificações mas, sobretudo no domínio político, figuras como a hipérbole, metáfora, ironia e pleonasmo são muito utilizadas porém, a variação e utilização diversificada de várias figuras torna o discurso mais credível e, por isso, facilita a adesão das pessoas com o respectivo condicionamento da vontade.
Sendo a vontade o topo, o culminar da hierarquia das propriedades mentais, também são muitos e variados os factores interligados capazes de a influenciar assim, é a conjugação simultânea ou sequenciada desses factores, que aumenta sua susceptibilidade, que mais facilmente determina e condiciona a vontade na sua autonomia decisional.
Doutor Patrício Leite, 29 de Janeiro de 2018

Neocomportamentalismo vital

Compreender o comportamento humano, como objecto de estudo, conduz necessariamente à sua estrutura, finalidade e funcionalidade, enquanto integrado numa mais vasta área da conduta face às contingências, contrariedades e adversidades ambientais, que a vida humana tem de enfrentar para sua sobrevivência.
Tradicionalmente, o comportamento tem sido empiricamente encarado como motivado por objectivos a atingir no futuro e causas ou motivações localizadas no passado que ao gerarem necessidades ou carências, mais ou menos conscientes, impõem uma imperiosa energética motivacional. É também pela visão tradicional que se descrevem variáveis como estímulo e resposta, punição e recompensa, antecedentes e consequentes, reforço positivo e negativo ou tantas outras que implicam sempre numa dualidade do ser vivo que é agido e age numa permanente interacção com o meio ambiente; de certo modo, este meio ambiente é assim personalizado com características de ser humano ou pessoa; por exemplo, entender que o meio selecciona as respostas por intermédio de punição ou recompensa é atribuir características humanas a esse meio ambiente; o comportamentalismo tradicional privilegia esta abordagem baseada num empirismo pseudo-científico cujas observações, hipóteses e experiencias necessitam, para sua consolidação e coerência, de grande esforço mental e trabalho de racionalização numa tentativa de arranjar razão para ter razão.
O neodualismo vai mais longe, avança mais profundamente na compreensão dos princípios que governam e determinam o comportamento humano; é por este método, neocomportamentalista e dualista do pensamento, que se avança para uma perspectiva sistémica segundo a qual qualquer entidade ou integra o sistema considerado ou não lhe pertence, assim, considerando a vida como um sistema fechado e isolado, portanto sem trocas de matéria nem energia, chega-se à conclusão que os seres vivos não são vida mas apenas seres ou entidades que são organizados pela vida. Na realidade, a observação de qualquer ser vivo mostra que todo o seu movimento, todo o seu movimento comportamental, tem como princípio servir a permanência da vida; este princípio de utilização do comportamento como simples modo de manutenção da vida estende-se aos seres humanos portanto, a vida não é um mero ser vivo, a vida é uma parte, uma entidade para nós abstracta presente em todos os seres vivos, que para se servir os organiza, mas deles se distingue; essa parte abstracta, a vida, é uma parte organizativa e expansiva que tem como finalidade a sua permanência; por conseguinte o fim da vida é, paradoxalmente, permanecer; é este princípio vital de permanência que determina todo o comportamento dos seres vivos, inclusivamente o humano. É desta imanência vital que emanam os comportamentos humanos, de manutenção da vida, de reprodução e defesa da prole mas também, por vezes, defesa incondicional da vida de outros seres vivos, sempre ao serviço da permanência da vida que não se confunde com um simples ser vivo. Compreender o ser humano é saber que o seu comportamento não é condicionado por punições e recompensas, estímulos e respostas, mas sim predeterminado pela permanência da vida em interacção com as contingências do meio ambiente que não são punidoras nem reforçadoras mas tão-somente estão, ou não, organizadas ao serviço da permanência da vida e, quando não estão, o comportamento faz-se no sentido de assim as organizar. As noções do dualismo tradicional como estímulo e resposta ou punição e recompensa perdem agora sentido, perdem agora significado para a permanência da vida como o grande princípio determinante da conduta, do comportamento humano.
Doutor Patrício Leite, 26 de Janeiro de 2018

Dialéctica versus Dualismo

Conceber a dialéctica como uma metodologia do pensamento humano é propriedade de alguns filósofos humanistas; outros porém, entendem a evolução histórica, alguns até o desenvolvimento natural e existencial, como resultado de um processo dialéctico.
Aceitar que toda e qualquer mudança se faz em três etapas é uma crença antiga e enraizada no inconsciente colectivo. O pensamento dialéctico ao se estribar na tese, antítese e síntese como forma de avanço evolutivo está, por inerência, a aceitar um princípio unitário paradoxalmente diversificado; na realidade a metodologia dialéctica pressupõe, indefinida e sucessivamente, a tese como união primária de dois princípios, na etapa de antítese os princípios serão afastados e separados para finalmente se juntarem e unirem na síntese que, por sua vez, funcionará como uma nova tese para, retomando a sucessão, explicar o desenvolvimento progressivo da história, da sociedade e até da realidade física existencial. A metodologia dialéctica teve grande divulgação no século xx graças ao contexto sociopolítico da época; foi um combate ideológico entre o idealismo que afirmava, e afirma, o primado da ideia sobre a matéria e o materialismo dialéctico que, por contraposição, defendia o primado da matéria sobre a ideia. A antítese dialéctica entre o primado da ideia ou da matéria nunca foi, nem será, resolvida; trata-se de um antagonismo fundamental atemporal cuja solução radica numa singularidade primária da dualidade existencial. Afirmar a tese e a síntese como união de princípios contrários constitui uma irracionalidade paradoxal ao entendimento humano já que dois princípios, ainda que contrários, não se podem reduzir a um só; ainda que se aproximem, ou afastem, continuam a ser dois, por isso se designam princípios; também a tese e a síntese ocupam, na sequência, posições afastadas e antagónicas próprias de uma etapa antitética do método dialéctico por isso, a evidência racional reflexiva conduz para a dualidade como primado existencial irredutível. A unidade e a diversidade existem, a ordem e o caos também existem. A unidade da vida, enquanto entidade organizada e a diversidade caótica da natureza coexistem numa dualidade fundamental irredutível; não existe um princípio para todas as coisas mas sim dois princípios; a vida é unitária e organizada, os seres existenciais são diversificados e caóticos; os seres vivos são diversificados mas ordenados pelo princípio organizacional unitário da vida. A dialéctica reducionista unitária paradoxal, assente na crença emocional do inconsciente colectivo, perde racionalidade para a coerência dos dois princípios dualísticos fundamentais irredutíveis.
Doutor Patrício Leite, 21 de Janeiro de 2018

Fenomenologia dualista

A fenomenologia tradicional, enquanto estudo ou explicação dos fenómenos, fundamentada na pressuposição de uma realidade positiva e estática, tem utilizado uma metodologia reducionista na compreensão dos objectos apreendidos pela consciência. Entender aquilo que aparece, como um fenómeno estático estudado pela fenomenologia é reduzir essa entidade ao mero positivismo existencial, mas também, excluir o negativo ou a negação, do seu campo de actuação e estudo. O desenvolvimento das ciências e do conhecimento científico é, actualmente, cada vez mais construtivista e criacionista; é construtivista no sentido em que a realidade humana actual é fortemente influenciada e construída a partir do que existe, é criacionista porque até nas ciências naturais, ou exactas, se admite a criatividade como produtora de conceitos, ou ideias, que posteriormente se tornam realidades existenciais. A fenomenologia tradicional nega a participação do observador na criação do fenómeno, na criação do objecto observado; a fenomenologia dualista propõe uma abordagem segundo a qual qualquer fenómeno tem duas componentes próprias, indissociáveis mas mutáveis, ou seja, aquela componente que diz respeito ao que está a ser observado e a outra que diz respeito ao observador. A fenomenologia dualista aceita a mudança, aceita portanto a mutabilidade dos fenómenos observados; o aparecido que aparece não tem realidade existencial estática, própria e independente de um ser captante ou observador; o aparecido que aparece depende do observador que o observa; o fenómeno aparecido, que aparece, é o resultado existencial de uma interacção recíproca entre o observador e o observado. Para a fenomenologia dualista o fenómeno não é meramente o que aparece, o fenómeno é algo mais, o fenómeno é o aparecido.
O método fenomenológico tradicional promove a redução eidética como modo de alcançar a essência; enquanto retira atributos ao que aparece até lhe alcançar a essência está a estabelecer e delimitar o campo ou território do fenómeno; ao considerar a essência como conditio sine qua non para a realidade existencial do fenómeno, está apenas a considerar uma realidade estática, unidimensional e externa ao ser que a observa. A nova fenomenologia dualista não nega a tradicional mas complementa-a, aceita a metodologia da redução eidética mas impõe a sua aplicabilidade simultânea ao observador e observado, aceita pois, a dualidade da essência como condição de paridade dual e indissociável na construção dinâmica do fenómeno; assim o eidos, essência ou ideia, só faz sentido enquanto coexiste em dualidade simultânea e dinâmica com o ser ou ente que o acompanha. O fenómeno que aparece e a essência do aparecido, funcionam estruturalmente como as duas faces de uma moeda, separados não existem, já que a sua realidade existencial é dualista.
Doutor Patrício Leite, 18 de Janeiro de 2018

Neuroelectroquímica Cognitiva

A emergência da reflexão filosófica aprofundada conduziu, desde há centenas de anos, o ser humano a um problema sobre os mecanismos do pensamento. A dúvida metódica do racionalismo cartesiano colocou o acto de pensar como pré-requisito da existência, mais tarde, a reflexão fenomenológica definiu a essência do pensamento como uma relação entre um sujeito pensante e um objecto pensado; em termos mentais o pensamento é entendido como o fluxo das ideias. Na realidade, muito se tem procurado sobre os mecanismos dessa actividade tão quotidiana que é o pensamento, as respostas são poucas e escassas. Em termos das ciências físico-químicas, ainda não se conseguiram desenvolver experiências capazes de comprovar as várias hipóteses explicativas mas, por analogia e integração de conhecimentos na área da neuroquímica, é possível desenvolver ideias e sabedoria em coerência completa com os conhecimentos científicos actuais.        
Compreender os fundamentos físico-químicos do pensamento obriga a um prévio conhecimento destas ciências aplicadas ao organismo humano; na realidade, este é constituído por diferentes substâncias químicas que interagem entre si e se podem classificar de acordo com a respectiva presença de grupos funcionais. Os aminoácidos são compostos da química orgânica que contêm, pelo menos, um grupo funcional amina de carácter alcalino e um grupo funcional ácido carboxílico.
As catecolaminas são monoaminas derivas do aminoácido tirosina que têm em comum o grupo catecol também chamado 2-hidroxifenol. A dopamina é uma das principais catecolaminas neurotransmissoras cujas funções variam em conformidade com a sua localização no sistema nervoso central, com a sua escassa ou excessiva actividade e com os respectivos receptores envolvidos. Alterações nas vias dopaminérgicas podem causar sintomas e doenças muito variadas, entre outras: perturbações psicóticas, doença de Parkinson, comportamentos adictivos e toxicodependências. Com apenas um composto químico, a dopamina, surgem patologias que podem envolver o movimento, o desejo ou vontade mas também o pensamento. Para explicar a grande variabilidade de alterações causada por apenas um composto orgânico, a dopamina, é necessário compreender a noção de estereoisomerismo ou isomerismo espacial que se aplica a compostos químicos com a mesma fórmula estrutural e diferente capacidade de desviar a luz polarizada mas também aqueles com diferente distribuição ou conformação espacial. Existem cinco receptores de dopamina (D1, D2, D3, D4 e D5) desigualmente distribuídos pelo sistema nervoso e sabe-se que a estereoisomeria da dopamina apresenta várias conformações espaciais pelo que algumas, mas não todas, conformações dopaminérgicas específicas actuam em determinados receptores.
A composição química dos receptores da dopamina faz-se à custa de várias centenas de aminoácidos que por ligações peptídicas vão constituir proteínas ou polipeptídeos cuja estrutura tem sete domínios hidrofóbicos transmembranares, um extremo terminal amina no meio extracelular e um grupo terminal carboxílico no meio intracelular. Os receptores dopaminérgicos estão acoplados à proteína G constituída por três subunidades, alfa, beta e gama. Alterações na isomeria conformacional da dopamina causam alterações nos respectivos receptores que, por sua vez, modificam a conformação da proteína G a qual através de uma das suas subunidades ligada à guanosina trifosfato permite nesta, alternância com guanosina difosfato, acabando por envolver o monofosfato cíclico de adenosina como segundo mensageiro até a concretização de efeitos fisiológicos sobre o metabolismo.
O excesso de dopamina nos receptores dopaminérgicos D2 em certas zonas do sistema nervoso está implicado em perturbações psicóticas que envolvem alterações do pensamento com delírios ou erros do juízo.
A interacção provável entre a molécula de dopamina e a cadeia polipeptídica constituinte dos seus receptores D2 faz-se através dos aminoácidos serina, triptofano e ácido aspártico; trata-se de uma interacção molecular feita por pontes de hidrogénio mas também por outras forças intermoleculares como as resultantes da interacção entre dipolos presentes em compostos polares ou então dipolos induzidos, nas moléculas apolares; a conformação estereoisomérica espacial da dopamina varia com a interacção destas forças intermoleculares e, dependendo da sua conformação espacial assim ela interfere com determinados e específicos receptores dopaminérgicos.
Algumas forças intermoleculares, como as que ocorrem entre dipolos induzidos, também chamadas forças de dispersão, dependem da massa molecular pelo que o número de isótopos dos elementos constituintes da molécula orgânica vai interferir nesta força e, por conseguinte, na conformação espacial da respectiva molécula.
Ainda não se conhece o papel e a função dos isótopos nos mecanismos do pensamento, das ideias e da memória; na realidade não se conhece o contributo dos isótopos para as alterações ou patologias dos organismos vivos em geral e do ser humano em particular.
A compreensão da electroquímica fisiológica dopaminérgica permite agora fazer a transposição analógica para os mecanismos neuroelectroquímicos do pensamento, assim, quimicamente e em termos de estereoisomerismo o pensamento é uma sucessão de mudanças da geometria conformacional de moléculas que ocupam um determinado espaço no organismo humano. As moléculas orgânicas estáveis, que após sofrerem mudanças na geometria conformacional voltam sempre à mesma conformação espacial, funcionam como unidade básica ou bit de informação na constituição das ideias e armazenamento da memória.
Mudanças ocorridas na geometria espacial de uma molécula vão, por intermédio das forças intermoleculares, interagir com as moléculas vizinhas causando-lhes alterações, surge assim o pensamento por associação de ideias.
O pensamento como resposta a estímulos externos sobre receptores sensoriais surge após um fluxo iónico com despolarização neuronal que se transmite por impulso nervoso numa corrente saltatória entre os nódulos de Ranvier, dos axónios, até atingir as telodendrites e libertar para a fenda sináptica neurotransmissores como a dopamina. Também, ao nível de alguns receptores sensoriais, ocorrem fenómenos de estéreoisomerismo conformacional como no caso do 11-cis-retinal (vitamina A) versus 11-trans-retinal, componente da rodopsina presente nos bastonetes que promove a transdução de sinal luminoso em corrente eléctrica permitindo que as células da retina se tornem responsáveis pela visão no escuro. Salienta-se que fenómenos associados a receptores acoplados à proteína G ocorrem também em outros receptores sensoriais como o olfacto e o gosto ou paladar.
Por analogia e perante os conhecimentos científicos descritos, o estéreoisomerismo conformacional revela-se responsável pela neuroelectroquímica cognitiva desde os estímulos externos produtores de sensações, passando pela percepção, até atingir as estruturas cognitivas do pensamento interpretativo e da memória como resultado de alterações nas conformações estereoisoméricas moleculares.
Doutor Patrício Leite, 10 de Janeiro de 2018